Mais que as palavras

•18 de agosto de 2014 • Deixe um comentário

Não disse a ela. Não disse.
Não por fraqueza ou dúvida. Nem por prudência. Simplesmente não disse, porque dizê-lo seria insuficiente; incompleto. Seria a mudez sonora em tempos de grito.

Em meio ao caos, pessoas cruzam nossas vidas sem permissão de entrada ou visto de permanência. E dentre todas, há aquelas às quais não podemos relegar a limitação das palavras.

Palavras são arquitetáveis, de uso promíscuo nesses dias de leviandade. Não significam mais do que a efemeridade do momento. Perdem-se em tempo e em significado.

Já a ideia não dita transcende os dias; inquieta a alma. Alimenta a vontade febril de expressar-se.

As palavras não ditas são, ainda assim,  transmitidas pelos labios, pelos dedos, pela saliva. Pela contenção do suspiro na boca alheia

As palavras não ditas transformam-se em intérprete do nosso desespero.

Por isso não disse a ela.
Não digo.
Não ouso dizê-lo.

Instintivamente

•8 de dezembro de 2013 • Deixe um comentário

Tenho tanto de você
ligado a mim,
Que já não sei se sonho o que sonho
Ou se sonho o que sou.
Só, sonho

Decorei suas manias com o inconsciente.
Até sua cara de deboche,
Sua meiguice genuína,
Sua imperfeição apaixonante.
Mas não o perdão – este ainda invento.

Minha alma não tem cura,
Sequer solidão.
Sabe, já não importa onde estou.
Pois ali haverá você
Em inspiração personificada.

Desgastar-me em vão esforço?
Por quê?
Se te amar é mesmo assim;
É quase selvagem.
É amar
Instintivamente.

Marionetes

•3 de agosto de 2013 • Deixe um comentário

A quem pedimos autorização para, por ora, admitirmos a queda das cortinas? Quem aceitaria conluiar que realidade até  cabe num teatro de marionetes — não pelas limitações, mas pela simbologia dos pequenos movimentos?

Neste teatro de marionetes, a solidão seria aquela luz anil agasalhando o inverno que se estende de solstício à equinócio no ano do mocinho. Coadjuvante carente de protagonista, que permanece inerte no canto esquerdo do pequeno palco improvisado com a caixa de papelão roubada da escada de incêndio, na altura do 5º andar.

E, então, o narrador contaria que os dias passaram e, embora insubjugável em relação a seus sonhos, o mocinho buscava-se manter onisciente sobre a realidade. Nela e alheio; simultaneamente.

Contaria que os dias somariam meses, que se radicariam em eras e, finalmente, páginas encardidas lidas, porém remotamente lembradas.

Eis que, lá do outro canto do cenário de papelão, surgiria a mocinha. Envolta em um escaldante escarlate. E também laranja. Amarelo, verde, lilaz. Mas não todas — porque a soma de tudo é o caos, que é negro.

Mas não este caos.

Este caos encontraria uma ordem personalizada. Desenhada para dois. Em giz.

E ele contaria a história da sua vida.
Ela ouviria.
Ou não.
Ele teria certeza que sim, porque o que importaria, ali, naquele instante, não era ela-em-si. Não era o encontro dele com ela. Não era o que havia.

Ela — ele compreenderia — era a personificação da sua própria saída. Saída sem volta. Saída sem ida. Só felicidade.

Aqui

•14 de maio de 2013 • Deixe um comentário

Ouço-te escondido.
Prefiro que assim seja;  sua verdade soa mais sincera à minha sombra.

Não! Não se envergonhe.
Esquece o teatro do cotidiano.
Você não me deve nada e nada tem para esconder de mim.

Continue!
Não hesite
Sua espontaneidade leva um homem ao delírio.

Quantos homens você já levou ao delírio?

Não precisa explicar. Não sou digno das suas explicações, pois te espio desautorizadamente.

Nada de voyeur.
Nada de prazeres lúgubres.
Só minha ingênua curiosidade.

Como se eu pudesse te enganar…

Uma noite

•1 de dezembro de 2012 • Deixe um comentário

Quero que seja minha amante essa noite.
O desejo por você me enlouquece.

Vamos profanar nossa amizade para devolvê-la ao éden dos libertinos.
Esquecer nossos nomes e todas as outras palavras para procurá-las no seu beijo.
Seu beijo lava a impureza da minha alma, me torna escravo do seu gosto.
Que homem resiste ao teu perfume?

Esqueça amanhã. Esqueça todos os outros dias do calendário.
Dorme comigo essa noite
E esqueça as limitações do mundo dos mortais

Você, mulher, me torna invencível

Volta

•29 de novembro de 2012 • Deixe um comentário

https://i0.wp.com/favim.com/orig/201108/17/back-checkered-girl-photography-sun-Favim.com-125226.jpgTalvez, se não fosse tão frágil, não seria tão bom. E é bom; bom pra valer.

Ninguém entende mesmo o que é se entregar, se envolver, deixar de ser para tornar-se novo. RG perdido sem chance de registro em Boletim de Ocorrência.

Porque a vida humana é mesmo cômica e trágica. É inconstância. É um suplício pela interdição voluntária.
Somos vítimas certas do genocídio lunático feito da alternância entre o amor e o tempo .

Vem dia, passa dia.
Vivemos com alguém, comemos com alguém, rimos desafinados na reprovação da serenata dos comuns para encontrar nossa métrica sob o retiro das cobertas.
E amanhã você me dá tchau e agente disfarça uma boa despedida.
Nenhum dos dois olha pra trás, sequer para se lembrar de esquecer.

Voltamos, então, ao estado inicial de “encalhado”.
Conhecemos alguns bares novos – mais do que nos permitimos lembrar -, pessoas novas, bebidas novas – mais do que nos permitimos lembrar – histórias novas, sonhos outros. E o incômodo da transição vai encontrando seu lugar no peito receptivo. (Con)vivemos.

Eis que surge um novo alguém, que já te esperava um pouco mais vivido. Esperava que você se preenchesse com um pouco mais de história.
E comemos juntos, dançamos, viajamos, conversamos, rimos, dormimos em claro, e tudo parece certo, coerente e necessário. Não vejo razão de ser senão no encontro dos seres partidos, a se preencherem.

Se amar novamente parecia impossível, acabamos debochando da própria sorte.

E, de repente, sem maior possibilidade de compreensão, tudo acaba. De novo.

Nosso futuro cambaleia em movimento helicoidal. A mola esticada que tende a retornar à posição circular. Mas porque o aqui-agora dói, escolhemos não sofrer, projetando, à frente, felicidade nos sonhos de infância.

E assim sobrevivemos até amanhã e o encontro de um novo eu, que não é mais o eu de ontem; eu de outrora. Este eu já é parte da esperançosa cura da tristeza, pois tem sua história reciclada. Abandona um gosto para encher a boca de tudo que não teve oportunidade de provar.
Um novo eu com uma nova vida
Com um novo alguém

E as coisas ficam. Passam. Revelam-se mais leves do que se lembravam nossos ombros.
Esvaziam a mente para os novos desejos.

Não seria bom se não fossemos vulneráveis, vestindo camisa de força feita de laços de porcelana.

Somos carentes de vida porque ela não está sob nosso controle.

Por isso entenda bem o valor da volta, ela quebra a lógica dos sentidos: se alguém retorna, ainda que como sombra na memória…

…saiba que este alguém contornou a inevitabilidade do tempo para fazê-lo.

Outro

•26 de novembro de 2012 • Deixe um comentário

Ah, pequena bomba que não sabe se divaga ou se detona! Crueldade peralta que sorri para intimidar.

Não costumo ser vencido pela fraqueza que se apodera da minh’alma,
Mas não tenho forças para, de novo, no velho buraco (hoje já cratera) tropeçar.